16 agosto 2010

Repensando o processo de escolarização à luz da Ciranda da bailarina

Estou certa de que será importante socializar algumas inquietações que, emergiram nas aulas de Psicologia Social no campo da Educação, ministradas pela nossa "bailarina-mor" (num sentido bem singular do termo), profª Lygia Viégas.

Ciranda da bailarina (Chico Buarque e Edu Lobo)

Procurando bem

Todo mundo tem pereba

Marca de bexiga ou vacina

E tem piriri, tem lombriga, tem ameba

Só a bailarina que não tem

E não tem coceira

Verruga nem frieira

Nem falta de maneira

Ela não tem

Futucando bem

Todo mundo tem piolho

Ou tem cheiro de creolina

Todo mundo tem um irmão meio zarolho

Só a bailarina que não tem

Nem unha encardida

Nem dente com comida

Nem casca de ferida

Ela não tem

Não livra ninguém

Todo mundo tem remela

Quando acorda às seis da matina

Teve escarlatina

Ou tem febre amarela

Só a bailarina que não tem

Medo de subir, gente

Medo de cair, gente

Medo de vertigem

Quem não tem

Confessando bem

Todo mundo faz pecado

Logo assim que a missa termina

Todo mundo tem um primeiro namorado

Só a bailarina que não tem

Sujo atrás da orelha

Bigode de groselha

Calcinha um pouco velha

Ela não tem

O padre também

Pode até ficar vermelho

Se o vento levanta a batina

Reparando bem, todo mundo tem pentelho

Só a bailarina que não tem

Sala sem mobília

Goteira na vasilha

Problema na família

Quem não tem

Procurando bem

Todo mundo tem...

Comentando:  Historicamente, as “dificuldades vividas na escola são tidas como sintomas de uma doença individual que é preciso identificar” (PATTO, 2005). Esse tipo de leitura acerca da realidade escolar é atravessado pelo discurso ideológico que culpabiliza os sujeitos, na medida em que deixa de criticar a sociedade classista atravessada por relações injustas e desiguais. Ainda nesse sentido, é vital atentar para o fato de que a noção de normalidade tão almejada condiz com o perfil delineado pelo capital, isto é, um indivíduo conformado, produtivo, cujo comportamento não represente uma ameaça à ordem e ao progresso, o que denota uma visão sobremaneira positivista. Desse modo, o conceito burguês de normalidade é uma espécie de ‘bailarina’ que representa um ideal de perfeição que não condiz com as possibilidades concretas dos sujeitos.
Pensar criticamente o processo de escolarização é, deveras, desafiador. Primeiro porque o pensamento transformador/revolucionário convive com ranços do tradicional, numa relação contraditória, de superação. Em segundo lugar, abordar questões que aparentemente já se encontram no rol de “verdades” é uma tarefa que requer, de antemão uma varredura interior em busca dos próprios preconceitos e juízos de valor. A canção suscita ponderações sobre o fato de que o conceito de normalidade precisa ser revisto, reconstruído, se o que se tenciona é lançar as bases para a construção de uma ordem societária em que pese a equidade e a aceitação da diferença como ponto de maior convergência entre o sujeitos. E isso pressupõe que, a priori, sejam reformuladas as formas de pensar e fazer leituras da realidade social.

(Postado por Ivonéa)

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