Estou certa de que será importante socializar algumas inquietações que, emergiram nas aulas de Psicologia Social no campo da Educação, ministradas pela nossa "bailarina-mor" (num sentido bem singular do termo), profª Lygia Viégas.
Ciranda da bailarina (Chico Buarque e Edu Lobo)
Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem
Procurando bem
Todo mundo tem...
Comentando: Historicamente, as “dificuldades vividas na escola são tidas como sintomas de uma doença individual que é preciso identificar” (PATTO, 2005). Esse tipo de leitura acerca da realidade escolar é atravessado pelo discurso ideológico que culpabiliza os sujeitos, na medida em que deixa de criticar a sociedade classista atravessada por relações injustas e desiguais. Ainda nesse sentido, é vital atentar para o fato de que a noção de normalidade tão almejada condiz com o perfil delineado pelo capital, isto é, um indivíduo conformado, produtivo, cujo comportamento não represente uma ameaça à ordem e ao progresso, o que denota uma visão sobremaneira positivista. Desse modo, o conceito burguês de normalidade é uma espécie de ‘bailarina’ que representa um ideal de perfeição que não condiz com as possibilidades concretas dos sujeitos.
Pensar criticamente o processo de escolarização é, deveras, desafiador. Primeiro porque o pensamento transformador/revolucionário convive com ranços do tradicional, numa relação contraditória, de superação. Em segundo lugar, abordar questões que aparentemente já se encontram no rol de “verdades” é uma tarefa que requer, de antemão uma varredura interior em busca dos próprios preconceitos e juízos de valor. A canção suscita ponderações sobre o fato de que o conceito de normalidade precisa ser revisto, reconstruído, se o que se tenciona é lançar as bases para a construção de uma ordem societária em que pese a equidade e a aceitação da diferença como ponto de maior convergência entre o sujeitos. E isso pressupõe que, a priori, sejam reformuladas as formas de pensar e fazer leituras da realidade social.
(Postado por Ivonéa)
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